Carpe Diem

E que venha a loucura

E que venha com toda a força

Força que me faça despencar das minhas próprias crenças

Crenças loucas


E que venha a fé

E que venha você

Renda-me!

Lute e enlouqueça também

Fuja da realidade

E se entregue às oportunidades...


Abandone a sua razão insana

E se afogue nesse mar de incertezas

Seja puramente profana

E que o nosso juiz seja a nossa vontade


E que o nosso controle e bom senso sejam passageiros

Viajantes de longa data

E que se percam na nossa odisséia

Na nossa aventura

Com nossa loucura

Buscando o porquê de ainda existir...

(Noturno)

sábado, 14 de julho de 2012

Continuação do capítulo 8


Parte 3: O acordo

            Sem palavras. Com certeza essa é a melhor expressão para explicar a minha situação nesse momento, se o meu temor sobre Dalila já era enorme, a aliança entre ela e Alice tornava a situação ainda mais grave. Enfim, não restava outra opção para mim, a única escolha era sentar e entender o que realmente estava acontecendo.

            - Sempre atrasado, não é mesmo Pietro? Por que demorou tanto?
            - Adoro sua ironia Dalila, ela consegue elevar ainda mais o seu carisma. Eu tive contratempos, e como você sabe, eu trabalho até tarde.
            - Eu sei garoto. De onde você conhece minha advogada? Pensei que ela fosse nova na cidade.
            - Não tão nova. Estudamos juntos no passado, retornei a pouco tempo e por coincidência acabamos nos encontrando depois de quantos anos mesmo Pietro?
            - Seis anos, três meses e dois dias. E eu não sou um garoto Dalila, eu apenas não posso atender todas as suas exigências.
            - Nossa que memória hein?! Você deve ter deixado lembranças fortes nesse rapaz. Sabe Alice, esse jeito impetuoso dele, torna-o tão atraente não é mesmo?
            - Acredito que deveríamos iniciar nossas tarefas senão sairemos daqui apenas amanhã...
            - Alice está certa. E eu acordo cedo amanhã. Diga-me Dalila, o que é tão urgente?
            - Como você bem sabe, estou muito interessada em abrir um curso de aprofundamento onde eu possa aprimorar alguns projetos e garantir uma maior segurança nesse mundo cão. Você sabe que nossa área é extremamente instável e a Escola faz de tudo para que nós continuemos eternamente submisso a ela, a ilustríssima diretora Eva Sales gosta disso, e uma das formas dela manter esse cabresto é limitando nossas oportunidades de emprego e crescimento profissional a escola dela. Outros tentaram sair, entrar em outras escolas menores, tentar se desvincular dessa servidão, mas Eva sempre encontrou um meio de quebrar isso, você sabe Pietro, você sabe com quem estamos lidando...

            As palavras de Dalila não foram tão surpreendentes, mas causaram impacto. De fato, era impossível sair da Escola para outros estabelecimentos particulares sem sofrer retaliações e ainda mais num mercado de trabalho como o aracajuano.  Tudo aqui é baseado a partir do que se fala sobre você. Seu currículo, suas habilidades profissionais somente terão importância depois que bons comentários sobre você surgir e é nesse ponto que Eva domina a todos. Como a empresa dela é a maior, Eva acabou transformando sua escola num ponto de referência fundamental para a carreira de qualquer outro professor, ou seja, quando alguém é demitido da Escola, sua carreira estará fadada a um curto e penoso fim. Eva não poupará infâmias contra o indivíduo e ele será eternamente visto como aquele que não deu certo na Escola, e numa cidade como Aracaju, isso pesa mais que qualquer currículo.
            Contudo, o que mais me impressionava era essa percepção ter vindo justamente de Dalila, na minha cabeça ela era um dos alicerces da Escola, composta pela tríplice Eva, Dalila e Abel. Como eu imaginava, a noite seria bastante interessante...

            - Prossiga Dalila. Aonde você quer chegar?
            - Mesmo sabendo que você já sabe, eu explico com maiores detalhes Pietro. O objetivo dessa reunião é estabelecermos os parâmetros legais para montarmos uma sociedade entre eu, você e Abel.
            - Abel Sales? O filho da diretora?
            - Não me interrompa. Sim, Abel Sales. Ele, mais até do que você, será a nossa aliança com a Escola. Eva não nos atacará e ainda poderemos extrair as informações necessárias para o crescimento da nossa empresa. Planejamentos de revisões da Escola, número de alunos que precisarão de reforço para a recuperação de notas e é claro toda a logística de marketing e propaganda, aliando-se a Eva, teremos de brinde todos os aliados dela.
            - Certo, admiro o seu plano Dalila. Só não entendi em que parte eu sou importante. Dinheiro não tenho, e a única coisa que eu quero é sair desse mundinho.
            - Bem, você tem o talento e o carisma e isso para mim é o suficiente para te bancar no início dos negócios. Por isso, trouxe Alice, a qual pertence a um escritório de advogados de São Paulo que já me ajudou bastante no passado. Ela irá apresentar as condições do contrato que assinaremos hoje.
            - Assinaremos hoje? Como assim? Eu nem lhe dei minha resposta ainda!
            - Por isso mesmo que eu sei que é positiva. Pietro, eu te conheço e se fosse para você dizer um não, já o teria feito. Portanto, eu o deixarei a sós com Alice e ela te explicará todas as condições do contrato, agora preciso ir, Abel Sales me aguarda e como você já bem sabe, a vaidade dele precisa ser massageada.

            Não demorou muito para Dalila recolher suas coisas e sair da sala, que agora parecia ainda menor. Sentado, Pietro ainda tropeçava em seus pensamentos sem saber ao certo o que dizer a Alice, no fundo, ele sentia um misto de raiva, indignação, surpresa e medo. Tudo isso, somado a sua expectativa, tornavam seus pensamentos infantis e é claro, as suas ações também.

            - Advogada? E de Dalila? Qual é a sua Alice? Veio de tão longe para enfiar o último prego em meu caixão? Você precisa fazer tratamento hein?
            - Quem precisa de tratamento aqui é você! Ainda não parou com essa mania de achar que o mundo inteiro gira ao seu redor e tem um plano tenebroso contra você? Ahh eu tinha esquecido o quão você é brilhante, porque de certo, para tanta gente assim querer te destruir ou você é a última coca-cola do deserto ou apenas mais um estúpido que não enxerga além do seu nariz.
            - Ah tá! Eu sou estúpido? Acredito que estupidez deve ser algo que motiva alguém a sair de São Paulo apenas para se vingar de um ex-namorado, acho até que tem outra palavra para isso, ahhh lembrei: é BURRICE.
            - O especialista em vingancinhas aqui é você, bem nem tanto não é mesmo? A saber, pelo resultado de sua última vendeta. Agora para de ser ridículo! O escritório que eu trabalho presta serviços para a senhora Dalila há anos. E eu fui designada para auxiliá-la nesse novo empreendimento, mas vejo que ela escolheu pessimamente os seus associados, porque ao que me consta um deles é um playboyzinho que caiu de paraquedas nesse negócio e outro é um idiota completo, ISTO É, VOCÊ. Ah e só para constar, nós nunca fomos namorados, você me poupou disso.
            - Senhora Dalila hein? O que o dinheiro não faz...
            - Meu querido, eu não tenho a noite inteira, então fica calado e ouça com atenção os termos do contrato, até porque uma vez assinado, não haverá volta.
            - Quem não tem a noite inteira aqui sou eu, pega a bosta desse contrato e faz o que quiser com ele! Eu não vou ficar aqui trocando palavras com um tipo de pessoa como você.
            - Bem, a opção de ter uma explicação sobre o documento é sua, mas como sei que você assinará o contrato de qualquer jeito, mesmo porque já percebi desde que chegou que há um interesse mútuo nisso, irei deixá-lo em cima da mesa. Tenha uma boa noite. Ah só mais um detalhe, quando assinar, entregue-o ao mâitre, ele já foi instruído sobre isso. Tenha uma ótima noite.
            - Vai a merda...
            - Você não mudou nada... Tsc tsc, até parece que parou no tempo. Por acaso teve alguma decepção amorosa foi?

            Eu não consiguia me situar diante daquilo. Era demais para mim. Enfrentar Dalila já seria um desafio muito além das minhas expectativas, mas bater de frente com ela e Alice? Putz, logo Alice? Como uma menina tão meiga, tão doce se transformara naquilo? Seca! Dura...
Minhas pernas ainda tremiam mesmo após a partida dela, minutos se transformavam horas e eu já não me sentia entorpecido pela conversa que havia tido com ela, na verdade com as duas. O sistema a corrompeu? Era isso mesmo? Alice estava a serviço de Dalila por dinheiro? E se foi por tanto tempo como ela mesma mencionara, então ela sabia com quem estava lidando... E ainda assim a transformara em cliente? Por dinheiro? De fato, eu me sentia cada vez mais um Dom Quixote e não entendia ou pelo menos não aceitava o quão insignificante eu me tornara para Alice. Será mesmo que eu fora apenas isso na vida dela? Meus pensamentos amargavam e não conseguia sequer imaginar alguma estratégia, mal sabia o que elas queriam... Será que Dalila sabia do meu envolvimento com Alice no passado? Será que isso foi uma estratégia dela para me desmontar? Eu jamais conseguiria achar uma resposta naquele estado, aliás, apenas uma pessoa saberia isso e o nome dela é Miguel. Precisava ligar para ele, conversar, abrir o jogo, desde a noite no Casarão que me intriga essa aproximação dele com Alice, havia algo naquele cenário que eu não conseguira decifrar. Ainda assim, aquele maldito pedaço de papel se debruçava da mesa para mim, e no fundo ele sabia que eu precisaria engolir meu orgulho, minha dignidade, vender ainda que em pequenas parcelas minha alma para entrar no jogo, o qual eu mal sabia se conseguiria vencer, provavelmente não. Eu ficava diante dele e não conseguia enxergar nada, lia e relia, nada, absolutamente nada me chamava a atenção. Tudo estava contra mim e eu havia criado aquele monstro que se levantara friamente e fora embora, restava apenas assinar aquilo e ir também, afinal de contas já era madrugada e adivinhem? Eu acordaria cedo para trabalhar. Não havia muitas opções. Meu Deus... O que eu fiz? 

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Continuação do capítulo 8


Parte 2: Surpresa?

            A chuva continuava a cair, e misturada à noite parecia anunciar que ainda existiam surpresas por vir. Não poderia concentrar meus pensamentos em Alice, pois havia um problema muito maior para ser solucionado, mesmo assim, era muito difícil não pensar nela.
Enfrentar Dalila seria algo completamente novo para mim. Eu sempre admirei a perspicácia dela, uma mescla de beleza, inteligência e sedução, e acredite quando eu falo capacidade de sedução, eu me refiro a um poder incrível de conquistar tudo aquilo que ela deseja. Começou muito nova na Escola e soube como ninguém desvendar as manhas e segredos daquele lugar, bem articulada sempre alcançou os seus objetivos e rapidamente deixou de ser professora do ensino fundamental para se tornar membro da equipe da tão disputada turma de medicina. Dalila sabia jogar e de certa forma, quando eu entrei na Escola me espelhava nela para crescer. O mais irônico é que o destino agora nos pusera numa situação onde ambos tentariam usar um ao outro para alcançar os seus objetivos. Mestre e discípulo se enfrentariam muitos feridos seriam formados nessa batalha, talvez eu fosse um deles, talvez...
A capacidade de manipulação de Dalila era incrível. Ela era a única que faltava quando queria o trabalho, escolhia as turmas que lecionaria e tinha atendimento vip do nosso ilustríssimo e patético coordenador. De certa forma eu entendia como ela conseguia isso, mas nunca procurei me aproximar demais dela, como disse, Dalila era muito perigosa. O mais estranho era que eu não conseguia vê-la apenas como vilã, às vezes me divertia com a forma que ela ridicularizava o coordenador Maurício Nascimento sem que o imbecil sequer notasse isso, mas também percebia que ela tinha capacidade de fazer isso com qualquer um. É meu amigo, ninguém é totalmente bom ou totalmente mau, carregamos dentro de si, anjos e demônios prestes a agir. A sua influência sobre as decisões da diretoria impressionavam a todos, a forma como ela e Eva se tratavam era algo no mínimo estranho, talvez Eva fosse a única ali capaz de vencê-la e talvez fosse isso que Dalila temesse, daí buscar reforços, se é que eu pudesse ser visto assim, para enfrentar a onipotente diretora.
Será que Dalila percebera as minhas intenções? Será que ela desejaria usar a minha raiva ao seu favor? Ainda assim, eu tinha plena convicção de que não ofereceria perigo a Escola, por que então me escolher? Eram muitas perguntas e nenhuma resposta. Somente aquela reunião poderia acalmar os meus nervos.
Outra marca de Dalila bastante presente era o seu gosto por coisas extravagantes. Ela adorava requinte e luxo, acredite, a escolha pelo hall do Hotel Radisson não foi aleatória. Ela gostava daquilo, imprimia a si mesma uma condição que no fundo tentava diferenciá-la dos demais, a riqueza. Acontece que ela tinha basicamente a mesma origem que nós, então por que tanta extravagância? Talvez isso pudesse ser uma arma utilizada contra ela. Isso mesmo! Ela poderia ser derrotada pelo sua ambição. Restava a mim, manipulá-la a esse ponto e com isso, sair de uma vez por todas daquele mundo. Desafio fácil não é mesmo?
Estacionei o carro, o hotel está diante de mim, e ainda assim eu continuo paralisado pelas minhas dúvidas, sufocado pela minha mente e angústias, Alice não me sai da cabeça e Dalila está diante de mim, aguardando friamente a minha chegada. Ainda não consigo vê-la, mas posso senti-la bem próxima de mim. Aguardo alguns vários minutos, ensaio falas, planejo, penso, entretanto isso é completamente em vão. Lá estava eu, diante de uma das pessoas mais inteligentes que já conheci, prestes a enfrentá-la e ainda assim não sabia absolutamente nada, muito menos como agir. O tempo passa, o carro me sufoca e a expectativa criara em torno de mim um ar pueril, sentia-me como um animal preparando-se para o abate. O celular vibra e interrompe minha pseudo-concentração, é ela... Eu sei. Não há mais como evitar, preciso descer e acabar logo com isso.

- Por acaso está vindo de ré?
- Eu já cheguei. Onde você está?
- No mesmo lugar que nós marcamos a 1 hora atrás.

A irritação em sua voz demonstrava uma certa fraqueza. Dalila sempre teve tantos sob o seu controle, e eu era o único que até então jamais o estivera. Talvez isso acabasse hoje, talvez eu me tornasse mais um dos seus lacaios. Seria realmente esse o caminho correto? Muitas dúvidas, poucas certezas. Já estava me habituando a isso. Se ao menos eu soubesse quais eram as estratégias dela... Se eu pudesse descobrir os seus reais planos... Enfim, aquilo não seria possível, pelo menos não naquele momento. Era preciso enfrentá-la ou simplesmente me mostrar disponível para os seus objetivos.
Caminhei alguns passos e logo estava dentro do Hotel, toda aquela opulência um dia já me serviu como um banquete de ilusões, mas naquele momento, representava para mim apenas facetas de uma realidade repleta de contradições. Dalila gostava disso, sentia prazer em ter poder, aquela sensação para ela era talvez melhor do que sexo, e era possível perceber isso nos seus olhos. Cada ordem, cada subordinado que passasse pelas mãos dela conhecia exatamente o seu perfil, a mulher gostava de mandar e demonstrar isso através da riqueza era uma de suas formas favoritas. Estar ali, naquele ambiente repleto de empresários a fazia se sentir membro honorário da alta sociedade aracajuana, eu não conhecia bem a história dela, meu primeiro passo seria esse. Contudo, era preciso oferecer a minha alma para ela como barganha pela minha independência.

- Senhor?
- Pois não?
- A senhorita Dalila o aguarda na sala de reuniões. Queira-me acompanhar.

Era incrível. Ela preparara tudo, eu tinha absoluta certeza que ela criara aquele ambiente para me impressionar, ao certo Abel no meu lugar já estaria igual a um pequeno poodle servindo e agradando a sua senhora, eu podia até imaginar a cena. Não cairia nisso, não me deixaria iludir mais uma vez. Não sou mais o garoto que a Escola conseguiu seduzir.
Dirigi-me ao elevador panorâmico acompanhado pelos funcionários do hotel. Foram oferecidos drinks e uma série de mimos que eu não aceitei, queria estar bem lúcido diante dela. E não seriam bebidas e guloseimas que tirariam meu foco. Minha mente começava a se direcionar para o diálogo com ela e eu já quase me sentia preparado. Afinal de contas, o que ela poderia fazer? E mal desci do elevador e já me sentia o próprio Júlio César ao entrar em Roma.

- Queira-me seguir, senhor. A sala é logo ali.

Estou diante da porta. A hora é agora, não há mais como voltar atrás. Eu negociaria com ela, envolver-me-ia num outro investimento por três anos. Esse era o tempo que eu precisava para juntar a grana necessária e cair fora daquele mundo, se Dalila iria lucrar com isso, pouco me importa. Se a Escola iria perder com isso, que seja, desde que no final de tudo eu pudesse sair daquilo. Girei a maçaneta fria, minhas mãos não tremiam mais, contudo ainda estavam suando, respirei fundo e entrei...

- Que demora hein Pietro? Eu e minha advogada já estávamos quase indo embora!
- Advogada? Alice?

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Capítulo 8: Sobre estranhos e desconhecidos


Parte 1: Angústia         

Fria. Sua mensagem transmitia um ar formal, semelhante a uma convocação ou a uma exigência. Aquilo não era do feitio de Alice, pelo menos não da Alice que eu conhecera, possivelmente os anos devem ter transformado-a em outra pessoa, outra mulher. O que ela esperava de mim? Eu mal poderia imaginar, mas naquele momento pensei que teria sido melhor se a mensagem pertencesse a Dalila.
As palavras contidas na mensagem me conduziram para um estado de paralisia. Meus pensamentos, meu raciocínio, tudo suspirava o nome Alice... Esse nome era um fantasma que me atormentava desde adolescente, e eu sabia que nada havia ficado no lugar com o retorno dela a Aracaju, algo dentro de mim tinha desmoronado com o encontro no Casarão. O que não esperava era ela querer conversar comigo, meu Deus... O que ela poderia querer? Não estava preparado para isso, e tinha plena convicção que toda essa situação estava fora do meu controle, mal imaginava o que poderia dizer a ela ou o que ela pretendia dizer para mim.
Caminhei para o carro trocando os passos, confuso, não sabia se deveria retornar ou apagar a mensagem. A ansiedade de querer revê-la se misturava ao temor de ter que confrontar os meus próprios demônios. Era como se os erros do passado retornassem para cobrar a sua cota, e no fundo, eu sabia que teria que pagar essa conta uma hora ou outra. Arranquei o carro e mal dei boa noite as pessoas que estavam ao meu redor. Suava frio e a cada parada no sinal olhava para o celular desejando que nada daquilo estivesse ali, tudo bem, uma parte de mim queria, mas não daquela forma. Confrontar Alice, conversar com ela, foi tudo que eu sempre quis durante anos e agora que eu tinha essa oportunidade, simplesmente não sabia o que fazer. Nunca um celular fora um martírio tão grande, uma dúvida que me fazia se sentir um inexperiente menino. De fato, Alice não era mais Alice, ela era um anjo negro que com um belo sorriso viera cobrar os meus pecados, estava na hora de encarar essa realidade.
Mesmo assim, algo dentro de mim discordava de toda a minha suposição. Não sei bem ao certo, mas o temor que aquela mensagem me causara não era só motivado pelos problemas que tive com Alice no passado. É difícil explicar, mas algo estava estranho. Ela não era de mandar recados! Não dava para entender. E se assim o fosse, por que ela não me procurou antes? Poderia ter feito isso através de Miguel. Pronto! Ligar para Miguel e me informar sobre tudo era uma excelente ideia! Como não pensei nisso antes?
O telefone toca. Uma, duas, três e até quatro vezes... E como esperado, ele não atende. Será que estaria envolvido nisso? Será que esse era mais um plano para me aproximar de Alice? Ou poderia ser algo pior... Do jeito que ele tem a “boca grande” poderia ter soltado algo para ela, poderia ter contado sobre o meu isolamento, minha solidão após a sua partida. E se isso tivesse tocado ela? Se ela agora estivesse disposta a me ouvir, dar-nos uma segunda chance? Só de pensar isso eu já me enchia de esperanças. Não! Eu não poderia me permitir a sentir isso outra vez, entretanto, todos nós sabemos que isso é inevitável, não é?
Nem percebi e já estava estacionado no meu condomínio. Os últimos dias tem se tornado flashs na minha vida e a sensação que eu tinha era que tudo acontecia de uma maneira que eu me sentisse sonhando dentro de outro sonho. Alice, Dalila, trabalho, vida... Eram tantas coisas acontecendo ao mesmo tempo, e mal sabia como administrar tudo isso, digerir toda essa confusão e angústia sentimental. Nos quase 40 minutos que levei para chegar em casa só estive consciente no máximo por uns dois, totalmente mergulhado em minhas dúvidas não sabia ao certo que decisão tomar. Era engraçado, no mínimo estranho, mas sempre que eu precisava tomar uma decisão era algo que tinha que ser na “bucha”, no “vai ou racha” e azarado do jeito que era... As coisas na maioria das vezes acabavam rachando. É meu amigo, existem coisas que só acontecem comigo.
Mergulhei no chuveiro esperando que a água limpasse minha mente e transportasse com ela os meus medos, os meus anseios e as minhas angústias. Contudo, o celular continuava ali, com pontos piscando para demonstrar que existiam assuntos não resolvidos, dúvidas não esclarecidas. Tentei não olhar, tentei esquecer, mas era impossível, pareciam marretas ribombando em meus pensamentos. Tentei comer e até dormir, mas nada e ainda eram 8 da noite. Liguei a televisão e passeei pelos canais, para o meu desespero não encontrei nada, caminhei pelo quarto, pela sala e como era de se esperar o apartamento ficou ainda menor, a sensação de sufoco voltara e meu corpo já começara a transpirar. Peguei o celular e resolvi acabar com essa “porra” de uma vez. Mas antes de apertar a primeira tecla joguei-o no chão... O que eu iria dizer a ela? O que iria falar?
            Não aceitava ter tanto medo assim. Por que estava me sentido daquela maneira? Por que tanto medo? Peguei o celular novamente, disquei os números, cada tecla soava para mim como um caminho sem volta, restava apenas o último ato, uma última tecla. Desliguei mais uma vez. A indecisão circundava a minha mente e esse ir e vir, ligar ou não ligar me deixava alucinado. Tentei beber água, precisava me acalmar, puta que pariu! Era só uma ligação e eu estava daquele jeito e imagine se estivesse diante dela. Mas não, eu precisava resolver aquilo, não podia aguardar mais, corri para o celular e disquei tudo de novo sem pestanejar, restava a última tecla, bastava aperta “send” e colocaria um fim naquilo. Meus dedos tremiam a cada milímetro de aproximação, era só um toque, bastava isso. Contudo, o celular dispara na minha mão, o número não era estranho, restava atender. Seria ela? Cansada de esperar, estaria dando o primeiro passo? Bem, só havia uma forma de descobrir isso!

            - Alice?
            - Pietro! Até quando pretende fugir de mim? E não, eu não sou Alice. Não reconhece mais a minha voz?
            - Desculpe-me, quem é?
            - Vejo que a nossa sociedade precisa amadurecer. Encontre-me as nove no hall do Hotel Radisson. Teremos uma reunião emergencial hoje.
           
            Dalila. Não sabia se esse nome indicava frustração ou temor, de um jeito ou de outro ela sempre vencia e como de certa forma eu já esperava, mais uma vez me via envolvido nos planos dela. O que fazer? Bem, não restavam muitas opções. Ao menos, eu adiaria o assunto Alice por algumas horas.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Continuação do Capítulo 7


Parte 3: A mensagem

            O sinal tocou e de qualquer maneira eu já me sentia incomodado de estar na sala dos professores, sentia-me constantemente vigiado. Subi os degraus com velocidade e parti para a aula, de certa forma, mergulhar em autores já falecidos me libertava do cotidiano, a aula me tornava livre e por mais que viesse a odiar estar na escola, lecionar era para mim um suprimento necessário para a vida. Na maioria das vezes, os alunos estavam muito mais preocupados com o show do final de semana do que abordagens culturais. Não os culpo. É da idade e eu também já fora assim um dia, contudo, dentro de mim acreditava que poderia despertar naqueles meninos uma educação para a libertação. Muitos ali mal sabiam o caminho árduo que estava por vir, outros tantos já tinham esses caminhos traçados pelos pais, mesmo assim, eu continuava a duvidar que eles estivessem satisfeitos com isso.
A verdade é que de certa forma, transformamos aqueles meninos em robôs dedicados a estudar, comer e na maioria dos casos, reclamar. Eu fizera parte daquele complô, mesmo me recusando a admitir isso, e talvez por isso buscasse agora nadar contra a maré, lutar contra o sistema ainda que isso significasse o meu fim. Eu iria perder, estava destinado a isso, ainda assim acreditava piamente que a minha queda não seria em vão. Ainda não sabia o que fazer nem muito menos o que fazer, mas já tinha certeza que o canal para tudo seria Dalila, aquela ideia ainda rondava os meus pensamentos. A dúvida maior então era: Eu seria capaz de manipular Dalila e Abel contra a escola? E o que eu pretendia fazer? Denunciar um sistema do qual eu mesmo fazia parte? Quanto mais eu buscava respostas, mais dúvidas se insurgiam contra mim.
            Naquela tarde Dalila meu cercou com o seu olhar, evitei estar próximo dela, mesmo sabendo que jamais conversaria comigo na escola. Ainda assim, aqueles olhos penetrantes me interrogavam sobre a minha decisão, olhar para ela seria denunciar as minhas intenções. Dalila era melhor do que eu, mais inteligente, mais perspicaz, extremamente objetiva, e eu simplesmente não sabia como lidar com isso. O que fazer? A priori, evitá-la completamente. Sabe como é né? Se não pode enfrentar o inimigo, fuja ao máximo dele!
            Fim da tarde, última aula, bastava terminar o assunto, fazer aquela revisãozinha básica e rumar para o meu apartamento, ou como Miguel diz, a “Fortaleza da Solidão”. De fato era, mas com o tempo, fui me habituando a isso. Durante a aula não pensava em outra coisa senão fugir de Dalila, para isso, era mais do que necessário desligar o celular. Copiei o assunto, expliquei e revisei constantemente, na maioria das vezes, o segredo estava na repetição e nas dicas dentro das questões, bastava isso e alguns termos teatrais para torná-lo uma estrela da licenciatura. Medíocre? É o que eu venho tentando dizer...
            A aula acaba e me dirijo para o mezanino com um único objetivo: ir embora o quanto antes. Contudo, uma aluna me pára com dúvidas longas e extremamente interessantes. Mal tinha notado aquela menina na sala, mas diante das perguntas dela percebi que não eram dúvidas simples e há muito tempo ela provocou algo que não sentia: Curiosidade. A chama intensa do conhecimento, toda a humanidade dependeu dela para prosseguir e sem isso, seríamos meros macacos de laboratório. Se o objetivo era ir embora rápido, bem, este fracassou. Contudo, depois de muito tempo, eu me senti necessário, não me importava mais se Dalila iria ligar, até porque dificilmente eu atenderia, a vida tem dessas coisas não é mesmo?
Quando pensamos que estamos fadados a uma rotina desprezível algo acontece e revoluciona a sua história e depois de quase uma hora tirando dúvidas e conversando sobre dezenas de autores e livros, eu queria mais, mesmo assim, não foi o meu telefone que interrompera aquela descoberta inusitada, no melhor do debate, ela precisou ir embora e de certo, era até melhor, pois professor e aluna, muito tempo em um mesmo espaço sempre dá o que falar. Despedimo-nos e prometemos novos debates e o que restou daquilo tudo foi o olhar dela, não entendi bem, mas acho que queria me dizer algo mais.
            Dirigi-me ao elevador e eu já tinha muitos problemas para resolver, um deles me espreitava em busca de respostas, a resposta. Enquanto aguardava a chegada do elevador, notei a chuva lá fora, adorava o som da água caindo no asfalto, aquele som me transmitia uma sensação de purificação, de transparência, era como se eu pudesse limpar minha alma de todas aquelas dúvidas que a cercavam. Os instantes que antecediam o elevador pareciam eternos e a tranquilidade que a chuva me transmitia ia se esvaindo no momento em que eu voltava a realidade. Pensava como a minha vida possuía, em diferentes etapas, marcos específicos. Dalila, Alice, Dona Júlia, Nina, todas elas mulheres que ocupavam a minha mente escravizando-a em preocupações e naquele instante, eu notara que tudo que havia realizado na minha vida estava de alguma forma relacionado a elas, mas o pior era constatar que há muito tempo já não era mais senhor de mim, e que talvez nunca o fora.
            As portas do elevador se abrem, ele está vazio, também pudera! Eu era um dos últimos a sair da escola, sempre mergulhado em dúvidas e tarefas burocráticas como preencher cadernetas, corrigir provas e aturar reuniões de emergência. Aliás, se existe algo que é banalizado no ambiente escolar é a palavra urgência. Tudo é realizado com enorme pressão como se todo o universo fosse cair sobre a sua cabeça se tal nota ou tal boletim ou tal apostila não saísse no prazo específico os próprios arcanjos do apocalipse desceriam dos céus para te cobrar, ouvi dizer certa vez que foram buscar o resultado de uma prova no quarto de hospital, onde o professor se recuperava de uma leve cirurgia.
Eu até entendo a importância de se respeitar prazos, mas a forma que esse respeito ou temor era adquirido apresentava-se para mim como algo completamente desnecessário. A sensação presente era que todos deveriam se sentir constantemente ameaçados e na minha visão aquilo era interessantemente estratégico, pois sob ameaça, ninguém questionaria os problemas internos da escola, ou seja, seus péssimos salários, o assédio moral, a incômoda relação entre alunos, pais e professores e, sobretudo, a sua estrutura pedagógica pautada numa segregação intelectual e simbólica, onde os alunos são iguais, mas uns eram mais iguais do que outros, principalmente se fossem fortes candidatos para o curso de medicina.
            Faltava pouco para chegar ao térreo, e eu já cansado queria apenas sair dali e me jogar na cama, esquecer tudo aquilo nem que fosse através do meu curto sono. É bem verdade, que uma mente intranquila não dorme direito e tranquilidade era uma coisa que não me visitava a muito tempo. Ao sair da escola me despeço de alguns alunos e funcionários e dirijo-me para o meu carro, noto que meu celular sinalizava uma mensagem de texto, imaginei logo que fosse Dalila, mas para o meu temor era algo muito pior, no mínimo inesperado:

            - “Quando puder entre em contato, precisamos conversar. Ass: Alice”.

Fim do capítulo 7. Aguardem, semana que vem teremos novidades!!!

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Continuação do capítulo 7


Parte 2: Feira de vaidades

            Após um almoço extremamente indigesto, retornei para o trabalho. A escola não pára, a máquina não pode parar. Todo o sistema circula em torno de aprovações, principalmente se elas forem em cursos considerados de elite, não basta educar... O objetivo não é esse, o foco da escola é Medicina. O nome por si só carrega em torno de si um peso, eu diria um fardo. Os alunos são postos em preparação ainda no ensino fundamental e são convencidos durante anos que a melhor escolha da vida deles seria a formação médica. Assim, eles são mimados e ao mesmo tempo cruelmente cobrados. Os mimos são acompanhados de horas e horas de cobranças e estudos, horários são elaborados, provas específicas, até turmas específicas são criadas para essas pobres almas que, na maioria das vezes não sabem se quer onde estão sendo envolvidos.
            Tudo faz parte de um imenso sistema que envolve marketing, disputa por mercado e é claro dinheiro. Quando aluno, o sistema já era assim e agora que eu participava do dele percebia isso com muito mais precisão. Todo o sistema educacional fora moldado para isso, é triste e possivelmente decadente, mas são as regras do jogo e se você não participa, o jeito é se omitir e sair gradativamente do mercado. Era o que eu tentava fazer, contudo, a omissão também é uma forma de sujeição e eu já não sabia o que estava fazendo. Provavelmente era tão manipulado quanto os meus alunos, apenas não entendia ainda qual era exatamente o meu papel nesse teatro de ilusões.
            Difícil era perceber como com o passar do tempo as pessoas iam internalizando essas características. Professores, alunos, pais, ninguém estava isento. Justamente por isso que ninguém era totalmente culpado. A sociedade representada pelos pais somente valorizavam as escolas que aprovavam mais em medicina, os professores acreditavam que ser valorizado é estar na turma de medicina e para os alunos, os mais prejudicados nisso tudo, professor bom é aquele que acerta mais questões e que leciona na turma de medicina, o interessante é que alguns alunos já se consideravam até diferentes pelo fato de estarem nessas turmas. O mais engraçado é que a escola manipulava essa feira de vaidades, estabelecendo valores diferenciados de pagamentos dos professores, formas de tratamento e até mesmo homenagens em confraternizações, acreditem... Beirava ao patético. Isso sem falar nas estratégias para adquirir boas notas no rank nacional de qualidade escolar. O esquema era simples: a Escola sabia que se os alunos de baixo rendimento participassem das avaliações de rankeamento do sistema educacional prejudicaria a colocação dela no resultado do Governo. Resultados ruins equivalem a péssimas matrículas no ano seguinte, para maquiar essa realidade e garantir um bom marketing no principal outdoor da cidade, bastava marcar uma prova de recuperação no mesmo dia das avaliações governamentais. Assim, apenas os alunos de bom rendimento fariam as provas e dessa maneira a imagem de que a Escola produziria um ensino de qualidade era construída...
            Nos dias que eu almoçava na casa de Dona Júlia ganhava como brinde dois desprazeres. O primeiro era ter que vê-la, algo bastante detestável para mim, o outro era chegar mais cedo na escola. Como de praxe esperava o início da minha aula na sala dos professores e acreditem, ali era o ambiente mais perigoso daquele lugar. Certa vez, ouvi dizer que a vida é uma selva, pois bem, se isso for realmente verdade, eu era um lobo no meio de leões. Professores são seres extremamente interessantes. Não entrarei no mérito de julgá-los pelas suas ações, mas torná-las públicas é o suficiente para qualquer julgamento.
            Dentre todas as peças da escola, os professores são aqueles mais importantes e ao mesmo tempo mais desprezados. Importantes porque são eles que determinam o valor da escola e a sua importância em aprovações, entretanto, ao mesmo tempo são postos em condições de mediocridade por tanto tempo que eles próprios se tornam medíocres. A disputa é acirrada, todo professor e eu mesmo me incluía nisso, precisava de certa quantidade de elogios dos alunos, aquilo garantiria a sua permanência no emprego. Tudo bem, até aí é completamente compreensível buscar esses elogios, mas manipulá-los? Usá-los contra os próprios colegas de trabalho? E tudo isso por alguns reais a mais na hora aula???
            Tudo começava com a própria divisão dos conteúdos a serem lecionados. Os professores mais próximos da coordenação conseguiam assuntos que seriam de maior apreço ou preocupação do aluno, os mais distantes ficavam com os piores. Com o passar do tempo a repulsa ao conteúdo se direcionava ao professor. Bem, isso era o de menos, supervisores e coordenadores tentavam transmitir a classe professoral um suposto feed-back que nada mais era do que terrorismo, “turma tal não está gostando da sua aula”, “prova tal não se adéqua ao modelo da escola”, “existem pais criticando o seu trabalho”. No fim, algumas críticas tinham até fundamento, mas o quadro pintado era muito mais trágico do que parecia ser. O objetivo disso? Deixar todos inseguros. Pessoas inseguras são alvos fáceis de dominar e de se sujeitar a quaisquer intransigências. No final das contas, todos saíam perdendo, menos a escola. A pressão era muito grande e fora criada para ser assim.
            De outro lado, ainda que distantes e não menos responsáveis estavam os pais. A vida agitada dessas pessoas praticamente as obrigou a deixar para escola todas as obrigações sobre a criação dos seus filhos. Ausentes, tentavam acompanhar de longe o amadurecimento das crianças, que ocorria de maneira extremamente desordenada e na maioria dos casos, confusa. A falta de tempo era recompensada por bens materiais que tornavam o entendimento de vida desses meninos em algo extremamente superficial ou simplesmente comprável. É claro que alguns poucos se sobressaíam a isso, mas era muito difícil, em alguns casos até a escola estimulava esse comportamento. O filho de Dr. X jamais poderia ser contrariado e caberia ao professor adequar sua aula aos desejos do garoto, mesmo porque se existe algo que as pessoas entendem muito bem é educação, não é mesmo?
É bem verdade, que alguns professores buscavam tirar proveito disso, aproximar-se do menino significava aproximar-se dos mais abastados meios sociais. Tudo faz parte do jogo, tudo é uma selva e nessa feira de vaidades, alunos se tornam clientes numa ciranda sem fim, onde não há culpados e vilões, apenas, tristes vítimas.

terça-feira, 29 de maio de 2012

CAPÍTULO 7: Entre olhares, mensagens e encontros


Parte 1: O almoço

            Já era habitual, todos os dias, sobretudo os mais cansativos, Pietro depositava em seus diários suas angústias e lamentos, para ele, taciturno do jeito que era, consistia numa forma de desabafo, para ser mais exato, seria uma espécie de libertação. Às vezes, mergulhado em seu silêncio, o jovem Pietro navegava em seus pensamentos através de dúvidas e decepções, escrever para ele seria uma maneira de experimentar o torpor e alívio de se distanciar de seus problemas, um bálsamo para os seus momentos de aflição. Sempre buscando respostas, sempre a procura de algo que o definisse e possibilitasse abandonar de uma vez por todas aquele mundo.
            Mas dentre todos os problemas que Pietro enfrentava diariamente havia um que o incomodava de forma peculiar, encontrar com ela era algo detestável e agonizante, só de imaginar todas as ladainhas e lamúrias mescladas a um profundo sentimento de rejeição proferidas, faziam com que Pietro se sentisse a pior ou pelo menos a menor pessoa do mundo, mesmo assim, era algo inevitável.
Sendo dessa forma, que pelo menos fosse rápido, esse era sempre o pensamento dele, mas como o de costume, nunca o era e acabava se tornando um dia inteiro de pedidos e reclamações. No entanto, ainda que a visita a ela o incomodasse profundamente, a conversa com Dalila, pelo menos naquele momento ocupava todos os seus pensamentos. Seria realmente possível usar o sistema contra ele próprio? Montar um cursinho e fazer dele uma passagem rápida para sair daquele mundo, seria realmente possível? Pietro sabia que somente ganhando muito dinheiro poderia quitar suas dívidas e se dedicar aos estudos, diminuir a carga horária e retirar toneladas de preocupações de suas costas, mas será que essa era a maneira correta? De qualquer forma, Pietro sabia que para escapar do abismo precisava se esgueirar ao seu precipício ainda mais. Cair era um risco, mas não ousar uma fuga, mesmo que improvável, era ainda mais perigoso.

...

Próximo do horário de almoço

            Eu já havia lecionado praticamente toda a manhã , sabia que teria cerca de 40 minutos para almoçar e se possível tomar um banho rápido para voltar ao trabalho. Ir para casa nem pensar. Por mais que fosse horrível, a única opção viável seria ir para casa dela... O que para mim era um mal extremamente necessário. Não suportava o fato de ter que ir pra lá, mas com a grana extremamente contada e o tempo mais ainda... Bem, essa situação não chegava nem a ser uma escolha. Todo o protocolo de ligar, avisar, pedir e é claro ouvir, ouvir muitas indiretas e insinuações carregadas de rancor, ao mesmo tempo, o simples fato de ter que ir lá alimentava nela uma espécie de prazer, às vezes parecia que aquilo tornava viva a ideia de que eu ainda dependia dela, não é por uma questão de afeto ou disposição para ajudar, mas sim por uma necessidade patológica de mostrar poder, e aquilo definitivamente me incomodava, mas fazer o que né? Ninguém me prometeu vida fácil, só acho que não precisava ser tão difícil assim.

            - Boa tarde Senhora...
            - Você aqui...? Já sei! Veio almoçar não é mesmo?
            -Acertou! Já pode jogar na mega-sena viu?! Pretendo ser rápido, não irei incomodá-la...
- Trate de me respeitar seu moleque! Vem até aqui e acha que pode me dar piadinhas??? Eu sei que você só veio almoçar, é a única coisa que você faz! Trata minha casa como hospedaria, some por dias, não liga para mais ninguém... Por acaso acha que eu tenho obrigação de alimentar? Por que não usa o salário do seu empreguinho de que tanto se orgulha?

            Essa relação de cobrança para comigo era sempre muito interessante. Em toda a minha vida, ela nunca demonstrou o menor sinal de afeto por mim, eu nem consigo lembrar alguma palavra de apoio ou de carinho. Sempre fui extremamente cobrado, e ela não admitia falhas, devido a isso, a essa obsessão doentia por perfeição, transformou minha vida numa série de provas e avaliações. Sempre com futuros projetados onde todos opinavam e interferiam o único desautorizado a isso era eu. Bem, podemos dizer que minha criação foi um pouco severa. Nunca falou sobre meu pai, apenas que era um sonhador. Talvez ele tenha fugido por não suportá-la, afinal de contas quem a suportaria? A mãe dela, aquela que deveria ser minha avó, sempre me destratava na primeira oportunidade que tinha... Comparava-me sempre a algum outro neto ou qualquer vizinho que possuísse a mesma idade que eu. Nunca era vítima, sempre culpado e do alto dos meus 12 anos eu já acumulava surras épicas que marcavam minha pele e toda a vizinhança, afinal de contas eu era o menino pobre e mal criado, burro e desajeitado, voador e lerdo. Bom, os elogios eram os mais variados possíveis.
E assim eu fui crescendo, sem saber exatamente o que era afeto, ou palavras de carinho. Alguns traumas não saem da minha memória, certa vez, em um “dia das mães” já meio esquecido pelas mágoas e pelo tempo fui escolhido para fazer um poema para ela... Eu tinha apenas 7 anos, repito 7anos, não sei exatamente de onde veio a ideia, apenas sei que resolveram musicalizar o meu texto. Foi a única vez que ela demonstrou algo por mim, jamais esquecerei aquele olhar, transparecia amor, mas ao mesmo tempo muita tristeza, o que veio depois disso foi uma explosão de fúria, ela rasgou o meu poema e com ele os meus sonhos, ali com aquele simples gesto, eu soube pela primeira vez que havia algo de diferente em relação a mim, não sei exatamente o que, mas desisti de entender a cabeça dela. Vida que segue.

            - E para quem eu deveria ligar? Para sua amada mãe que te expulsou de casa grávida? Ou para a senhora que eu mal entrei e já está me cobrando... Imagina se eu ainda morasse aqui. Olha, eu não tenho muito tempo... Nina está bem?
            - Se você quisesse saber mais sobre sua irmã você ligaria para ela...
            - Dona Júlia, eu só vim almoçar...
            - Eu sou sua mãe.
            - A senhora nunca conquistou esse título.

            Fui até o quarto na esperança inútil de dar um beijo na minha irmã, pela minha felicidade ela não teve a mesma criação que eu tive, para ser exato, às vezes me sentia excluído daquele mundo. Minha irmã sempre fora tratada como uma princesa e de fato sempre mereceu isso, estudiosa, dedicada e muito meiga, certa vez ouvi dizer que ela lembrava a Dona Júlia quando nova. Acho muito difícil, não consigo imaginar sentimentos daquela mulher... Enfim, para a minha tristeza não a encontrei e também não poderia esperar por ela, deixei um bilhete, coisas que irmãos fazem um com outro. Almocei debaixo de algumas reclamações e cobranças, para ser sincero mal conseguia distinguir o que ela dizia.
Eram sempre tantas coisas, tantas críticas que eu simplesmente ignorava tudo ao meu redor, no fundo algo me dizia que era através disso que ela tentava chamar minha atenção. Provavelmente escolheu a forma errada, desprezo e estupidez nunca foram ingredientes para o amor e respeito. Dona Júlia nunca aceitou meu envolvimento com as Letras, o sonho dela para mim era a Medicina... Mal dá para descrever como era massacrante as cobranças dela, a título de exemplo, eu acho que fui o primeiro garoto do meu bairro a aprender a falar inglês e isso com 10 anos. E quando iniciei o ginásio, hoje chamado de ensino fundamental, começou de fato a minha via crucis, todo fim de mês era um terror, Dona Júlia não aceitava notas inferiores a 9 e a cada fracasso uma humilhação. Basta fechar os olhos que eu lembro das surras, dos gritos e berros, frases do tipo “Você me envergonha”, “Nunca será nada”, “Não te sustentarei para sempre”, “VAGABUNDO” e isso eu tinha 13 anos!!! Dá para acreditar? Quando entrei no ensino médio, eu me tornei algo que os meus poucos amigos chamavam de Zumbi, não saía de casa, não me envolvia com ninguém, era trancado em meus livros, diários e pensamentos.
Às vezes penso que estive numa prisão e somente após muito sacrifício conseguir sair dela. A decisão por outro curso foi o início da emancipação de Dona Júlia, que por não aceitar minha escolha, já não pagava minha escola e assim eu fui para o ensino público onde conheci meu grande amigo Miguel. É triste olhar para o passado e enxergar que a única lembrança que eu tenho da minha mãe é o sofrimento, aliás, mãe não, Dona Júlia.
Quando ela se envolveu com outros homens, eu fui “convidado” a assistir os seus amores e desamores, é difícil imaginar isso, contudo, não é de agora que acompanho os equívocos dela. E sabe como é né? Para cada decepção amorosa, meu calvário aumentava ainda mais. Não sei se foi sonho ou se é algo esquecido na minha memória, mas certa vez acho ter a ouvido dizer que eu sou a prova do fracasso dela, a cruz que meu pai teria deixado para puni-la, eu tinha apenas 4anos e já era culpado por todos os problemas do mundo.
Quando minha irmã veio ao mundo, a situação ficou menos pior, pois se antes era o alvo, passei a ser um desconhecido na minha própria casa, completamente ignorado, a ponto de ser servido pratos e alimentos diferenciados para cada filho. Nem preciso dizer que eu não comia “caviar”... Hoje percebo que ainda não me libertei, mas no fundo sinto que ela nunca me aceitou e por isso sair de casa pelos meios que tive foi a melhor opção, provavelmente a única.
 Fui para o trabalho, ainda faltava muito para o dia acabar. Antes de sair...

            - Pietro! Nesse sábado quero você aqui em casa.
            - Não obrigado, não curto safári.
            - Estou precisando ajeitar algumas coisas para a mudança.
            - Como assim mudança?
            - Não lhe devo explicações.
            - E eu não sou seu empregado.
            - Quero que você desmonte o quarto de Nina, ela não pode fazer isso sozinha. Esteja aqui às 7h.

            E assim, eu percebia o quanto aquele almoço iria me custar. Pois, de certa forma, quem iria desmontar a casa seria eu, Dona Júlia citou o nome de Nina, porque sabia que jamais negaria algo para minha irmã. Oportunista, possivelmente... Mas com certeza, muito esperta. Ela sempre acabava me envolvendo em algo que eu lutava para ficar distante, como disse, ela me queria por perto, afinal de contas qual senhor não deseja ter os seus subordinados à sua disposição?

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Continuação...


Parte 3: O Alicerce

Meses depois

            Angustiada. Talvez essa fosse a palavra mais adequada para caracterizar Júlia, grávida de 3 meses, logo ela não conseguiria mais esconder a sua condição para a sociedade e principalmente para os seus pais. Otelo, não tinha respostas, e imaturo do jeito que era, jamais saberia contornar aquela situação, o garoto ingênuo e carinhoso apresentava-se cada vez mais desesperado e infantil.
Otelo, em suas angústias buscou auxílio em seus pais, contudo, a única ajuda que recebeu foi um convite para se retirar de casa. Morava agora num quartinho e vivia daquilo que conseguia arrecadar com a sua música. Não demorou muito e ele largou a faculdade, dedicou-se a vida noturna, tocando em barzinhos, o que o levou a uma nova paixão, o alcoolismo. Perdido e desamparado, Otelo seguia rumos cada vez mais obscuros e Júlia, desconsolada, não sabia como reagir. Não era apenas uma questão de desamparo, ele realmente não aceitava ter chegado a esse ponto, estragara a vida dele, arruinara o futuro de Júlia que agora chorava copiosamente pelos cantos. Faltou a eles conselho, faltou carinho, no entanto, cobranças e dúvidas sobraram.
            Não demorou muito para que os pais dela descobrissem a gravidez e assim como o esperado a puseram para fora de casa. Grávida e sem opções, Júlia foi morar com Otelo, e muito em breve também abandonou a faculdade, passou a se dedicar a trabalhos domésticos na casa de alguns pais de suas amigas, que tentavam ajudá-la de alguma forma. Júlia sempre fora altiva, nunca se humilhou e mesmo naquela situação drástica enfrentou tudo e todos, ela endureceu.  Não era o mundo que ela projetara, não era um sonho, não era vida.
            Diferentemente dela, Otelo não soube lidar com a situação, as dificuldades financeiras e a proximidade do nascimento da criança, daquela quase maldita criança, distanciaram ele de Júlia e quando menos esperavam, já se sentiam estranhos vivendo no mesmo minúsculo e humilde espaço.
As acusações eram realizadas diariamente, um contra o outro, dor contra dor. De certa forma, a criança que nem viera ao mundo sentia isso e logo pagaria por um crime que nem ao menos sabia que existia. Otelo se embriagava mais e mais e já não era o mesmo, Júlia se afundava em trabalho e já vislumbrava num futuro virar o jogo. Voltar para a faculdade, criar o menino, contudo, aquele outrora fora seu amor, perdia-se em sonhos e devaneios. Ela não conseguia ajudá-lo e depois de certo tempo também não quis mais fazê-lo. A criança nasceu e mal sabia que um abismo de mágoas a esperava. Cansada daquele mundo, Júlia decidiu dar um basta e ir embora, aquilo era o fim para ele, tudo perdido e com uma vida tão difícil ele se perdia ainda mais dentro de si.
O tempo passou e Otelo assistiu de perto o crescimento de Júlia, viu como ela poderia crescer e superar aquilo, também a viu se envolver com outros amores outras histórias, era tudo muito nublado para ele, que mal sabia diferenciar a loucura de sua triste realidade. Mesmo com todo o esforço, Júlia jamais conseguiria se reerguer como diarista, ela não merecia e ele de alguma forma pensava em ajudá-la, nem que para isso fosse necessário mover céus e pedras.
            O alcoolismo transportou Otelo de seu mundo fantasiado para uma virulenta depressão. Ele depositara em si toda a culpa por aquilo e ao menos uma vez desejara não ter conhecido aquele que fora o grande amor da sua vida, restava então um último gesto de amor, a criança não poderia sofrer por eles e merecia de alguma forma ter o seu futuro assegurado, Otelo sabia disso e jurou para si mesmo que devolveria tudo o que ele pensou ter privado de Júlia. Em sua mente já perturbada tomou a mais triste de suas decisões.
            Era um domingo qualquer, daqueles que amanhecem com os pássaros, o jovem maestro buscou na loucura as respostas para as suas angústias. Pendurado na cozinha, Otelo fora encontrado, aos seus pés diários que se perderiam ao longo do tempo e uma carta com os dizeres

            “Meu amor, meu eterno amor, não saberia dizer-te adeus. Não culpe a criança, minha partida trará uma melhoria inesperada na sua vida, levo comigo a lembrança daquela menina que sempre viverá no meu olhar... Com amor, Otelo”.

            Durante dias incontáveis, Júlia chorou. Suas noites vazias e a solidão que a massacrara diariamente a moldaram numa outra mulher, fria, amargurada que cheia de remorsos não soube aceitar a partida do seu único amor. O dinheiro adquirido com o seguro de vida feito por ele nunca preenchera a sua ausência, aquele fora o seu último poema, o seu sacrifício, restava agora a Júlia seguir adiante, mesmo que não aceitasse a criança, mesmo que a culpasse por tudo, era necessário criá-la e fora assim que, o pequeno menino crescera. Sempre rotulado, escolhido como o vilão de uma história de amor fracassada, sempre criticado, esculpido pela dor e sofrimento de Júlia, fora assim que se moldara aquele que deveria ser um novo homem, um novo alicerce: Pietro.

FINAL DO CAPÍTULO 6, em breve... Mais novidades!!!

Continuação...


Luzes no interior da casa, alguns passos se dirigem a sala e estes sem dono, sem nome foram responsáveis por mergulhar Otelo em sua loucura pessoal, sem alternativas se jogou na “casinha do lixo” e lá ficou encolhido durante mais alguns minutos. Otelo jurava para si mesmo que se conseguisse sair dali ileso pagaria qualquer promessa, mas dentro dele uma pergunta se fazia presente: E Júlia? Ele precisava dela e no fundo sabia que se saísse dali sem vê-la todo sacrifício seria em vão.
            A cozinha se acende cada vez mais os passos se aproximam do humilde esconderijo de Otelo e ele já se preparava para o escândalo, os berros, a sirene e todo o carnaval que a mãe de Júlia iria fazer. Já imaginava até a surra que tomaria, na verdade já sentia até a dor...
            As luzes da varanda são acesas, bom agora é questão de segundos, Otelo sabe que será descoberto. Contudo, a lua lhe trouxe mais uma surpresa e uma voz doce ecoou dali
            - Otelo? Meu amor, eu não beijarei você fedendo...
            “Como assim?” Pensava Otelo. Como Júlia o descobrira ali? Tão rapidamente, logo Otelo que se sentia quase um James Bond ao entrar na casa dela. Contudo, seus pensamentos são interrompidos por mais passos e agora era o semblante de Júlia que ficara completamente frio
            - Rápido, saia daí! Meus pais acordaram! Vá pelo corredor da varanda e entre pela segunda janela, é o meu quarto.
            Otelo abriu um pequeno sorriso e antes mesmo dela falar outra vez, ele já havia fugido para o corredor.
            - Julhinha... Não é hora de estar acordada. Amanhã você tem inglês.
            - Eu sei mamãe, apenas queria olhar a lua, estava com saudade dela.
            - Nem pense nisso... Não quero saber de você relembrando aquele marginal. Já lhe disse, que o seu lugar é nos Estados Unidos, formada e linda, não aqui pensando em encontros ao luar com um qualquer.
            - Mas mãe...
            - Sem mas, vá para o seu quarto e só saia de lá amanhã.
            Em silêncio Júlia se dirigiu ao quarto, mal a sua mãe sabia que aquilo era o que ela desejara durante meses e muito menos que a sua pequena menina estava disposta a se tornar naquela noite uma nova pessoa, uma flor que desabrocharia em uma mulher.